27 março 2007

Salazar


Quando a CIA aposta em Mário Soares em vez de Sá Carneiro, não era porque aquele estivesse ideologicamente mais próximo do que este. Mário Soares tinha maior apetência pessoal pelo poder, era talvez mais oportunista e tinha o apoio da Internacional Socialista (aquela de que nunca mais se ouviu falar após o triunfo do bloco politico-militar capitalista -- curioso).

Com tanta apetência pelo poder foi fácil fazer acordos com a CIA, a igreja, os empresários fugidos, os latifundiários, os militares antigos e os políticos do fascismo publicamente menos comprometidos.

Com a estabilização militar obtida com o 25 de Novembro, 18 meses após o 25 de Abril, procedeu-se à estabilização política e social. Jogou um papel importante o fim dos debates políticos existentes no período do PREC. Seguiu-se (até precisamente 25 anos depois de 1974) um período de grande alteração nos órgãos de informação, caracterizada pelos concursos, telenovelas, futebol (tentaram também ténis, automobilismo e passagens de modelos), comentadores “democráticos” (a direita do CDS ao PS) debates políticos “democráticos” (a direita do CDS ao PS), além das telenovelas informativas a substituir a informação esclarecedora. Enquanto não deixavam de lembrar os crimes da esquerda, esqueciam de culpabilizar os criminosos do fascismo. Os pides chegaram na televisão a ser tratados como “Senhor Inspector”. Como síntese da ideologia por trás dos grandes órgãos de comunicação isto diz tudo.

Enquanto a política económica foi beneficiando os mais ricos, em nome da democracia e da eficiência, o país foi-se afundando em corrupção, extinção de sectores produtivos, apesar dos (à volta de 2) milhões de contos entrados diariamente no país.

Naturalmente o que menos interessava a este conglomerado de interesses era ouvir nos grandes órgãos de informação as opiniões dos “não democratas” – aqueles que não alinhavam no empobrecimento do país para enriquecimento dos que lucravam com esta (para alguns) sua liberdade económica.

As instituições internacionais nada diziam a este empobrecimento dos mais pobres para enriquecimento dos mais ricos (países e cidadãos). CEE e I.S. sempre calados em relação a estas características da nova ordem económico-político-militar internacional.

Dada a complacência e até simpatia com que Salazar, salazaristas e “novos democratas” foram tratados nos grandes órgãos de informação, face à forma agressiva como foram hostilizados, impedidos de participar e acusados os que não alinharam nesta alegre união nacional, não é de admirar que o país seja hoje razoavelmente salazarista. Não é de estranhar que a direita CDS-PSD-PS tenha dificuldades em justificar como é que as suas preocupações “cristãs” ou “socialistas” conduziram a tal estado cultural e a tal estado económico. Estou certo que nenhum telejornal lhes apontará o dedo.